quinta-feira, 15 de setembro de 2016

aula

no good times, no bad times. there´s no times at all just the new york times.
overs, paul simon.


há cerca de quinze dias dei uma aula para a banca examinadora do concurso para professor substituto do departamento de comunicação da ufpb. passei longe do que se poderia chamar de brilhante, exata e, contrariando minhas expectativas, sequer provocou uma discussão pour épater le bourgeois, graças a apatia(senga?) da banca.

confesso que fiquei decepcionado. menos por xetrar. e mais pelo fato de ser vitimado pelo xifodismo que a universidade continua a perpetrar.

sem conseguir difundir- ou permitir - a discussão crítica e oxigenada do saber, que julga produzir, ungida por um discurso acadêmico cuja função é preservar o espírito de corpo cuja aspermia reflete-se na suprema ironia de, para perpertuar-se como está, alimentar o fosso entre a teoria e a prática. velha astenia que sua pretensa modernidade não consegue resolver.

a motivação desta aula , porém, não e a contestação pura e simples de um “desclassificado”. mas a constatação e o chamamento para discussão pluralista – ainda que limitada pelo espaço – das circustâncias atuais na cátedra do jornalismo impresso, propositura que o decon castra, lambendo suas entranhas, mostrando-se “afável” apenas no discurso ideológico da proclamação do saber titulado, articulando falas – linguagem é poder – substancialmente vagas para a sociedade no discutível dialeto da superioridade acadêmica.

minha aula teve como ponto, o lead, a pirâmide invertida e os realces, aspecto da técnica de apresentação de notícias. de saída propus a releitura de tais questões uma vez que são administradas sob a ótica que desconsidera totalmente as transformações acontecidas – e em curso – com o meio jornal. esta ótica não propunha dissociação as nossas indigentes condições. muito pelo contrário, já que de per si dedicava-se à formação teórico-prática de mão-de-obra fadada a encalacrar-se nos crônicos problemas das redações locais. defendi o papel de uma teoria que oxigenasse a visão dos alunos com informação nova - até citei wiener: “viver efetivamente é viver com informação adequada “ - e acima de tudo, propus o componente crítico como equipamento indispensável a quem vai produzir ou conduzir idéias. isso, sem dúvida, bate de frente com uma bibliografia desatualizada –e acrítica – com as mudanças conceituais e tecnológicas do jornalismo dos anos 90, que decididamente não combinam com a literatura gagá, cujo formalismo remete para a classificação da existência do lead retardado, isto sim, um retardo sem tamanho na formação intelectual de quem procura a universidade para aprimorar suas potencialidades. evidentemente a banca acha que não. e como nós profissionais somos capengas no didatismo acadêmico – preferimos ter idéias a ter método e jujuba na cabeça – isso agrava ou destrambelha a exposição. acontece que a banca também não é composta por jornalistas ou professores brilhantes como as aulas que eles querem ver. calma gente! eu não estou ofendendo ninguém. apenas disse que wellington, custódio e alarico não são brilhantes, o que não quer dizer que não tenham suas qualidades(é que em joão pessoa todo mundo se acha genial).

não se pode desconsiderar, a não ser por interesses mesquinhos da sonegação do saber ou manutenção do status cu(ou como diria um provocateur, status cu) que o desenvolvimento de novas tecnologias, a segmentação e diferenciação do mercado, o desenvolvimento dos meios de comunicação e as alterações no comportamento do consumidor impactaram substancialmente as relações da produção jornalística. se antes tínhamos um jornalismo movido pelo poder político, hoje temos um jornalismo movido pelo poder econômico, coberto pelo manto da mercadologia, o que não atena sua face, muito mais cruel e pragrmática, da manipulação de informações como forma de controle social. e neste contexto, dar uma aula “brilhante” tendo como substrato mário erbolato, exige um poder de abstração e negação que não possuo, mas que é comum aos “amestrados”. ainda mais dando de cara com uma banca que não olha nos olhos do candidato, seja ele brilhante, medíocore, détraqué ou carrapato, principalmente quando desdizendo sua bíblia.

iconoclasta inconsequente? nem tanto mestre. só que sustentei que o lead não é mais ponto axilar na introdução da notícia aos olhos do consumidor. não custa lembrar que um dos maiores sucessos editoriais do momento é ray gun, revista quase ilegível, excêntrica, um desafio que precisa ser decodificado pelos leitores, concebida por david carson, art director e graphic designer, que já havia feito experimentos cuja ousadia resultou na premiadíssima beach culture. mas este é apenas uma das pontas do novelo ligada a outra pelo conceito de target.

o hoje e o amanhã da mídia impressa no brasil estarão sendo discutidos no print brasil 93, que vai acontecer em outubro. não sei se a banca vai estar lá. mas lá, com certeza, não podem botar banca. porque se forem com este discurso praticado na unversidade vão ser internados por “osteoporose intelectual” sejam mestrandos, phd´s ou pós doutorados.

a miopia crítica também está presente no mercado profissional. é compreensível do ponto de vista deles. mas que interesses movem alguém a dizer que pilotar a computação dos nossos jornais – com 386 foras de produção e softwares de calças curtas – dá no mesmo que pilotar o asashi shimbum? a saudar e aceitar o termo multimídia como caracterizador de plus pessoal? quando a multimídia – um termo dos anos 60, descoberto aqui e agora ? - já morreu? (o que vive é a intermídia, assim como a telefonia celular já era. o quente é a intermídia celular e um sem número de processadores de comunicação que estão sofrendo uma aceleração violenta e que vão atingir nossas cabeças mesmo em redações na idade da pedra(quanto mais 386 mais pedra) a exemplo do jornal em tablete, os roger fiddler, do information design lab, do grupo knight-rider).

é preciso que fique claro que não decretei a morte do jornalismo impresso apesar das modalidades de jornalismo impresso telemático existentes. o que se tentou discutir – e foi um fiasco, repito – foi o momento das transformações do jornalismo determinado pelo sintoma da segmentação que tem levado a cadernização, colocando a diagramação como cabeça de praia no panorama atual – nunca houveram tantas e tão frequentes reformas gráficas – que alteram o papel, segundo a decom, imexível? do discutido lead já em sua concepção. jornal hoje é sobretudo um laboratório de designer gráfico onde busca-se uma gestalt impactante porque a linguagem jornalística em-si mostra-se incapaz de despertar ou prender a atenção, pois nunca houveram tantos meios informativos para captar a atenção do leitor tradicional de jornais. jamais houve uma geração que tivesse mais a sensação de que pode viver sem ler jornais como a de agora. não é uma questão de credibilidade. há uma diminuição alarmante no hábito de leitura entre pessoas entre os 18 ou 30 anos. esta, mais uma centena de conclusões, são do seminário modernidade em jornal: a conquista de leitores e anunciantes , ministrada em 1990 por professores da universidade de navarra – faculdade de ciências da informação – que hoje ocupa a vanguarda de repensar e modernizar o jornalismo. o que faz o nosso decom? cede um ombudsman porque o jornalismo local não tem ética ou culhão para ter um profissional dos seus quadros na função? poncif!

a nossa banca seguindo os mandamentos acadêmicos, está mais preocupada com o tempo de cinquenta minutos ignorando o que se passa – foi a impressão que ficou – na alteração do consumidor que considera, inclusive, anúncios como notícia informação, ao tempo que nossos jornais desconsideram tal fato, assassinando anúncios razoáveis, quer pela diagramação inconsequente, quer pela produção própria de publicidade natimorta, caricatural. cinquenta minutos de aula expositiva sobre lead é demais para mim. aulas expositivas são tão ineficientes como a abordagem erbolátea. um atentado à mediocriade que se preza. aula é show-off(que não dei). e tem que ter feed-back. depende do professor e dos alunos( e da banca também). exige sua participação munidos de leituras prévias, para que se subverta a relação paternal professor, detentor do saber inquestionável, e alunado, que necessita de tal muleta. aula é seminário. profusão de opiniões, ainda que equivocadas. aluno que não contesta não deveria entrar na universidade. utopia blakeana? evidentemente isso não faz a cabeça do saber “escolástico”. o resultado? o que se vê na prática.

não se formam jornalistas brilhantes na universidade. não é à toa que vem à baila a discussão sobre a validade do diploma. nenhum jornalista brilhante ou vibrante da nossa geração nasceu pela universidade ou tem mestrado ou doutorado. pulitzer não se ganha com títulos a não ser de matérias. jornalista não se forma(mas se deforma) ou é do ramo ou não. a função da universidade é dar-lhe equipamento intelectual para que ele aprimore suas potencialidades. isso ela não faz, já que alimenta o fosso acrítico e o academicismo. e a questão levantada que jornalista não é escritor, é a recaída no esquematismo da pureza da notícia que tem a mesma raiz da dominação que ainda hoje vitima o jornalismo interpretativo e opinativo. jornalista escreve história que vira estória que vai para a história(mas só pelas mãos dos brilhantes onde, evidentemente, não tenho a pretensão de me incluir).

também não se pode esquecer que a categoria substituto tem duas leituras. a de substituir pura e simplesmente uma peça tecendo loas e mesuras à cartilha acadêmica – possivelmente o fato da mestranda ter se dado bem, ela deu a aula que a banca queria ouvir. e a de substituir métodos, acríticos e anquilosados, que estão incrustados nos verdes e lodosos quadros do decom.

lamentei não assistir a aula dos demais concorrentes. lamentei ainda mais que não assistissem a minha. certamente eu teria aprendido um pouco mais. não é, pois, a aula uma troca(docendo discimus?)

fim da aula com o joão rodolfo prado:” nosso tempo é caracterizado pela descoberta da língua e do discurso, da consciência de que não há dizer natural. em nenhum lugar se admite o inocente. é um tempo terrível. tudo tem significado. até mesmo um discurso gráfico”.

a quem interessa o discurso do lead acrítico? da aula exata? da titulação estéril? aos estudantes de jornalismo ou à universidade naufragada?

in tempo – aula já estava pronta antes do imbróglio petrônio souto. se é por esta ótica o concurso deveria ter sido anulado pelo simples fato de que os pontos não foram sorteados no horário previsto pelo edital, o que favoreceu retardatários. aliás, o famigerado edital também não informava a remuneração para o cargo e o peso dos itens títulos, aula, experiência, no concurso(professores de jornalismo não sabem escrever um edital?)

fiz o concurso como uma forma de aprendizado para sentir o que me esperaria caso me candidatasse a cadeiras pertinentes a propaganda que é o que me interessa. não sou cabotino a ponto de dizer que se fosse classificado não pensaria em aceitar. mas não fui. pronto. cabe lembrar que a discussão entre a dicotomia academicismo-prática(ou praxis) não teve o objetivo de empanar o mérito da candidata vencedora. existem profissionais tapados e titulados brilhantes. e vice-versa. só que os profissionais estão ganhando de goleada. oxalá a candidata não faça gol contra.

aula foi publicado no jornal o norte, associado da paraíba, no domingo 10 de outubro de 1993, aqui já com correções aos erros cacográficos e de revisão de então.

*com rigor, do ponto de vista acadêmico, o “four-fait” da aula no concurso, foi meu excesso de confiança na capacidade de improvisação, e de não ter preparado um esboço mais concatenado de divisão de tempos e conteúdo, somando-se a isso um dia de bio-ritmo não benéfico, e tem-se o quadro. acontece até com os melhores.
por outro lado, se assim não fosse, que graça teria uma aula acadêmica? pensava eu, como se isso contasse pontos, para banca tão ciosa de seus princípios. by the way, entre mortos e feridos, salvaram-se todos? com suas culpas e acertos.
interessante neste artigo, creio, é a antecipação sobre questões de perda de índice de leituras por parte dos jornais, e o tópico referente a comunicação intermídia há 16 anos passados, o que me fez passar por viajandão à epoca

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