quinta-feira, 15 de setembro de 2016

e agora? vamos embrulhar peixe com o quê ?





não foi preciso tanto tempo assim para que o jornal como o conhecíamos apodrecer.

nos anos oitenta, ainda fazia-se jornal com barulho de máquinas de escrever, tele-tipos e linotipos. as redações tinham movimentos peristálticos de outros estômagos e cérebros ainda vivos a espirrar idéias entre edemas de pulmões pau a pau com cinzeiros abarrotados, arrotos de chambaril, e hálito de “ cachaça da boa “ a impregnar a primeira página.

havia sangue nas páginas policiais, como sempre, mas a violência era quase light se comparada com a de hoje. socialites a dar chiliques juntamente com travestis em plena redação olhados de soslaios por políticos importantes que os anotavam em suas agendas complementavam o quadro aqui e ali salpicados por alguma troupe a procura de divulgação.

desse tempo jaz a última lembrança da entrada na bateria da escola de samba da redação do jornal do brasil pelas mãos do noênio spínola, acabado de chegar do seu posto de correspondente em moscou para assumir a editoria de economia, cabendo a mim a sub, se aceitasse.

mas havia um problema, eu teria de cortar o cabelo. já que passaria a conviver com a intimidade de um poder cabeludo que começava a despertar atenção e a aumentar o número de páginas do caderno já não mais econômico em conteúdo.

preferi continuar de cabelo em pé. o que provavelmente foi a maior barriga jornalística que fiz. mas o fiz com uma convicção invejável

hoje as redações são limpas como cozinhas do mcdonald´s e os textos tem sabor de comida congelada. se lá estivesse caberia em mim a touca ?

(publicado originalmente no cemgrauscelsius.blogspot.com em 22 de fevereiro de 2006 )

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