quinta-feira, 15 de setembro de 2016

miopia crítica



o exercício da crônica, no panorama do jornalismo brasileiro, foi sempre visto como atividade menor, como "menor" é vista a crônica como gênero literário. imprensada entre sua indefinição, quanto aos limites de sua similitude, entre o universo do conto, e a fantasia das novelas, por conta da sua "falta de espírito", mais realista em sua invenção, foi sempre neglicenciada como modo de abordagem pertinente a assuntos mais "sérios". salvo a intervenção de espíritos mais abertos, sua produção e, principalmente, sua abordagem crítica, ou mesmo a abordagem sob forma de despretensioso registro, foi varrida das páginas literárias do país, notadamente no círculo literário, em que a inteligentzia (ou burritizia), ocupa vaidosamente o ofício. resta pois a lembrança de fernando sabino, rubens braga o C.D.A., como artífices de croquete demasiado romantizado em sua produção, perpetuando-se amnésia a demais autores do gênero, bem como o esquecimento, quanto as suas possibilidades de invenção, que não o saldo negligenciado de uma produção percebebida como intervalo das calosidades do batente ou sobremesa de outras meditações, se as "honras do ofício" das demais produções da prosa.

entretanto a desonra não pára aí. ái de nós, cronistas, objetos de, e cronomusicófilos, se o patinho feio(a crônica) tem outro míster senão exatamente como música, ela: a música. tememos que, apesar dos espíritos abertos as crônicas, estes, muxoxeiam, se estas(as crônicas) descobrem, vem a ser sobre o universo musical brasileiro, notadamente dos últimos quinze anos. conseguiremos inscrever-mo-nos, em meio ao espaço ricamente cultivado de outras loquacidade críticas ?

se respondida a pergunta, virá à tona estranhamento ante a "sobranceira" crítica musical praticada na imprensa pernambucana. ausência completa de elementares sucos gástricos para esta digestão e posterior expelimento, seja desde os proeminentes engasgos lukacsianos, a uma crítica dita criativa - e não didática de ismos e istmos de outros interesses - que levem em conta uma semanálise que não fique à reboque dos fatos. registro que veiculado no espaço jornalístico atual, de há muito tempo, releases, aspeados sob o comodismo trambiqueiro de colunistas brilhosos ? nem ao menos no forjamento de seus pseudônimos compactuados a seus prenomes.

a primeira característica de nelson motta é o seu quê de ar juvenil e sua paixão sobre aquilo que aborda - necessária à crônica mesmo nos velhos mestres, quiçá pudéssemos ainda contam com a quinta-essência de renato carneiro campos - mantida através do exercício crítico de linguagem, e crítico não somente como traduzem os títulos- de música- mas de costumes, cultura, ou melhor dizendo, do que fosse humano através da escrita lançada à linguagem musical. a falta de ranço, o fígado bendito, eis a maior qualidade do nelsinho.

carta das paixões e das ausências abre o livro e é prenúncio de algumas lições. nelson motta adverte e ensina" detesta quando o chama de crítico musical, pois não pode ser ao mesmo tempo o que fiscaliza e o que ama". saída pela tangente ? motta reconhece que seu ofício exige um poucão de calma e um minuto de alma, vibrante e entusiasmado com a possibilidade de escrever sobre o que ama, o que decerto ele faz sem a petulância de tarik de souza, a decoreba adjetiva de ezequiel neves, a melosidade irada de ana maria bahiana, ou a suprema pretensão escolarizada de sílvio lancelotti. dentro da "humilde" possibilidade das crônicas, aqui e ali, nelson motta vai desmistificando a boçalidade dos vanguardeiros destrutivistas vivificando a chama dos artistas brasileiros, principalmente os de sua geração, golpeada pela queda de jango em 64, renegados pelo "melhor" do escriturado pensamento que habita redações e cercanias, dominadas, , ora com uma academicismo crônico, impostado ao desprezo no tratamento das questões ora divididas e irmanados em inoperância entre a porra-louquice viscosa e a babaquice corrosiva da ciranda engage.

é imperativo ainda acrescentar que escrever bem é sobretudo fugir a monolítica tábua da verdade utilizada pela crítica. urge que esta seja feita numa lingaguem inter-e-entre-la(n)çadora, dispondo-se a abordagem múltiplas, que revelam não só sinal de inteligência, mas de honestidade,a boa prática nas análises das diversas produções do gênenro humano. é muito tímido ainda, o vocabulário semântico dos profissionais da crítica, que só se preocupam com os referencias estéticos e teóricos em voga, esquecendo-se do rico filão da metáfora e da tranposição artística, que descreve e aprofunda de maneira muit mais esclarecedora -e por vezes estarrecedoras - o movimento, dia sim crônico e dia sim não , das mentes e corpos no planeta do humanos.

música, humana música, promete isso, crônicas. não fenomenais revelações em sua leitura, mas inúmeras tentativas de se declarar com tamanho amor ao ofício. sem transas escuras ( don´t deal with darks things, como diz bob marley)mas dizendo de forma bonita as idéias que existem em confusão nos corações anônimos de todos os cotidianos.

música, humana música. jornalismo, crônicas sobre músicos e música popular brasileira e etc. nélson motta. ed. salamandra. 1980. 132 pg. Cr$ 200,00.

(publicado originalmente no caderno de literatura do diário de pernambuco, na sexta-feira, 13 de junho de 1980) 

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