quinta-feira, 15 de setembro de 2016

o fusca e a farsa



os homens deveriam ser aquilo que parecem.
iago, otelo, shakespeare.


lançando mão de um número, cabalístico? 13 mil, a volkswagen do brasil, agora uma divisão da autolatina, anunciou, sardonicamente, a fila de espera para o que seria um acontecimento histórico: a volta dos que não foram(tema de anúncio)ou seja, o fusca novamente na linha de produção. travestido de pós-moderno-popular, como se fosse possível existir um carro popular, num país que em que nem uma bicicleta pode ser adquirida por uma família classe média, sem forçá-la à dieta, quanto mais pela inominável maioria vitimada pela infecciosa moléstia apelidada de salário mínimo.

insone ironia. passados quarenta e tantos dias do anúncio, o fusca encalha. é desovado à forceps como brinde na compra de santana e quantus – que também encalham, pois no segmento existe coisa melhor, importada e mais barata – e mesmo assim à duras penas, porque muita gente exigiu o desconto e desprezou o fusca.

a volkswagen resfolega e anuncia baixa de preço. o fusca não fala mais ao pau dos brasileiros? ou não se fazem mais fuscas como antigamente?

dernier cri-cri, no país do presidente que apesar de topetudo é o presidente mais sem topete que já tivemos, as principais publicações do país – isto é, folha, veja, e aquela que tem nome de uísque – ejacularam repetidamente provincianismo bicolor, açodando e açorando itamar e lisle, a lucena de belas coxas. da musa do inverso, mediados “simbolicamente” por seu affair bip!bip! com, em, por e pelo fusca, seria o fusca um afrodisíaco ainda não descoberto pelo josé carlos, expert em todo tipo de bolas, inclusive as tailandesas?

somos um país de adoráveis sem-vergonhas? de intelectuais eunucos? ou de uma imprensa que só mama quando não goza?

a centimetragem dedicada a este tipo de “voyeurismo”, eu heim, vote! é de fazer qualquer lençol de puteiro manchado – com labor e honor, sim senhor – enrubescer.

transformou-se caso banal, outonal, que itamar não é mesmo de ações tórridas, pelo menos politicamente, em “fotonovela cucaracha” – atenção televisa/sbt – com direito a cenas à torto e à direito , inclusive de arroz brochado, sublimando os foras do casal ainda? unido pelo símbolo caga-sebo que acabou-se por tornar-se imprestável maxabomba pelas mãos de um motorista, senão de, com fogão(a inglaterra é o pais dos mordomos. o brasil é o pais dos motoristas).

vão chorar os pais e o país – a grande imprensa(tem menos de “nine” madona) insiste – mais pela perda do fusca do que pelo fim-de-caso com o itamar que, convenhamos, não era bem visto. pois presidente que se preza tem amante que entra pela porta da frente com toda pompa e circustância e que só admite entrada, jamais saída, pelos fundos, ainda mais escoltada por ajudantes de ordens e “amigos” de todo tipo. aprenda-se com o menén que, além de baixar a inflação, sabe fazer outras subirem com mais estilo.

chora a pátria amada a perda do objeto fálico. oh! estupor, imprensa de centímetros balofofos e tonitroantes. a volkswagen e lá algumas de suas concessionárias prometem-lhe um conversível. itamar ganhou o dele, da ala da volks machista? enquanto lisle fez beicinho “ eu agora quero um fiat”. a fiat deveria fazer um anúncio: enfiate nele lisle, grandprix de alto- nível-baixo-.

mas a imprensa atarracada de grande não desiste. a volkswagen também não. itamar não tinha sogro. só o pai de lisle, presidente do congresso, contrariado tantas vezes – qual é o pai que gosta de ver a lisle com um cara topetudo a dirigir o fusca da filha e depois dar-lhe gêlo? nem se fosse o elvis – a ponto de dizer que ele, itamar, não devia tratá-la assim -ninguém sabe se assado-.

o fusca derrapa. humberto é bafejado pela força centrípeta da cpi, de onde nem deus escapa, tamanho o estado de merda em que estamos, coliformes e disformes para todo o lado, atingindo culpados, calados e honestos que, segundo millor, se julgam assim porque não sabiam da mamata. como diz racine, o “ latim macarrônico” hoje é pouco(“ ainsi que la vertu le crime a ses degrés” ( seja diferente fale frances e gaste seu salário de nada em dois dias do mês).

mas humberto, com h de honesto pra dar, defendeu-se no reflexo: “ podem me chamar de burro mas desonesto não”, que nem mansarda tenho, carregando no sotaque de probidade de quem é ateu perante o deus mamon.

não bastasse o malogro de ser sogro do itamar e ogro para a imprensa, humberto, sendo mais honesto do que nunca, cometeu o suicidío intelectual do ano ao procurar distinguir alhos de bugalhos, tassalhos de borralhos, vergalhos de chanfalhos e mangalhos de todo o resto. transformou seu atestado de pobreza em atestado de mediocridade. pobreza não é rima perfeita para honestidade. tem muito pobre, de espírito principalmente, ladrão, o que ilumina a incompetência de quem não pode dizer, sou rico e honesto, esta sim uma lapada para desnortear qualquer teoria do enriquecimento divino, coisa que joão alves não inventou, aprendeu com a igreja mesmo que, como não tinha loteria, saqueava, mamava, vendia, postergava através de éditos e bulas, simonia abençoada, amém. ladrar pobreza é algo pobre demais para quem se aventura ao governo castrado por um partido que nem na comilança do desagravo lhe quer na sobremesa. mas isso é assunto para o macaco e sua essência ou o óbvio e obtuso, novos plurais?

e zuas daqui, zus dali, lisle deixa de ser legalhé. eis que ressurge montada no sofá de jô soares, guerreira,articulada, coerente – foi só ficar longe do itamar? – fazendo vibrar as notas da imprensa local, tímida ante aquele bocâo que saracoteou o inconsciente coletivo de muita gente que “pensou”: cabra boa, queria ter uma filha assim. xô incesto! funcionária honesta, é filha de um presidente, teve caso com outro, noblesse oblige, apesar do salário de Cr$107 mensais, que não tem mais fusca, mas que agora revela-se não mais pelos pendores de luscos –fuscas na alcova topetuda, mas como a mol à la page, não se deixando dominar pelo terrível peso-pesado-das-saias-justas que é o jô-man-talk-show. dá-lhe lisle. diante dela a raposa dos provérbios não diria tão bela mas sem conteúdo.

máscaras da tragédia e da comédia nos espaços da mídia. itamar. lisle. fusca. humberto. não cabem noutros papéis? o brasil não nos cabe e em sí?

dizem que na alemanha querem comprar fuscas. sim. mas como diletantes burgueses, vão de ferraris, bmdabliús e royces, comprar antiguidades. autenticamente. sem farsas.


publicado no o norte, diário associado da paraíba, no domingo , 07 de novembro de 1993. aqui já com as correções dos erros cacográficos de então produzidos em tempos de máquinas de escrever manual. o interessante é que já estão presentes no miolo, caso não tenham notado, cpis e esta merda todo que comemos no presente. ah! você não come. tá bom, fica combinado assim.

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