quinta-feira, 15 de setembro de 2016

plural singular *




a censura, seja qual for, parece-me uma monstruosidade, algo pior que o homicídio: o atentado contra o pensamento é um crime-de lesa-alma. flaubert.

é preferivel escrever um anúncio sobre automóvel, geladeira ou batom, a defender uma idéia contrária a seu íntimo. escreva a favor de um automóvel que não vai poder comprar, mas nunca a favor de uma idéia ou de um governo ou instituição com os quais não está de acordo. origenes lessa.


o homem pensa. e isto às vezes é um desastre.
acontece comigo também. daí a necessidade que temos - todos - de esgrimar idéias para além do narcisismo intelectual e da mortalha ativista. de nos fazermos plurais.

acontece que foi inopinadamente singular, e muito pouco plural, o libelo de francinete araújo clamando por censura neles, branindo estilete moralista sobre os peitos e rabos de chico noronha, ricardo anísio, atingindo os nossos, inclusive os dela.

censura é coisa de assassinos intelectuais, tiranos, ditadores, religiosos, histéricos, assassinos de fato e portadores de corpos e mentes sexualmente mal resolvidos. ninguém precisa ter vivido a bad-trip de bastonetes na vagina, alicates nos peitos, cacetétes nos rabos, estupros, curras, maquininhas chocantes, e tour-de-force alucinantes, promovidos pelos mesmos e eternos defensores da censura, pra saber que censura é tortura. qualquer uma. do parágrafo suprimido ao cano de escape na boca.

mas não sou eu que vou dinamitar araújo. o que dizer do jornalista que reivindica censura para seus iguais? ainda bem que não a censuraram. nem cabe considerar as demais formas de censura para além do brocardo de sotaque evangélico dos seus plurais singulares. leia reich, francinete. talvez ajude. afinal, rabo e peito você os tem. mas usá-los para copular com a censura ?

fazendo reclame de mim? ultimamente é a acusação que mais me pesa. não é fácil manter o distanciamento crítico, alimento indispensável para sobreviver no picadeiro, ainda mais quando não se está em condições de igualdade pela falta de espaço - são tantas as formas de censura -e sujeito a toda sorte de bombardeios, inclusive o do falseamento que veta a resposta e dos cortes muito pouco epistemológicos, digamos assim.

mas, por exemplo, quando leio walter galvão lambuzado do azedume de um certo ranço intelectual que estigmatiza a publicidade - isto é como azia dá e passa - devo intervir, contando com sua aquiescência em publicar o maldito.

reclame da benetton é título que reflete metalinguisticamente o ranço. galvão sabe como desmantelar as vísceras. é extremamente inteligente mesmo quando deslocado ou propositadamente? equivocado. o tripé consumismo, proselitismo, oportunismo, não é definitivamente o tripé que sustenta a produção da boa propaganda. se assim o for, é também o tripé que sustenta o jornalismo, ainda mais o de hoje. não? já a inserção da categoria alienante, porque dissimula o verdadeiro objetivo de vender roupas é viés academicista, no mínimo, em seu rompante. estas campanhas visam maximizar o share of mind através de uma tática que busca mídia espontânea - o que conseguem - construindo via paradoxo - benetton cutiva o dândi dandy - o brand equity para a marca. nem caberia discutir a questão ética. por falar em ética: quem é menos ético: francisco josé, ao dizer isenta a globo, ou a api, pela mão de walter santos, trazendo-o para discutir ética!?!?

tampouco a classificação de autoritário ou o máximo de demagogia, populismo ou proselitismo como toda publicidade o é, a argumentação que melhor desnuda a estratégia da companha e a facúndia do articulista.

não devemos esquecer que a publicidade, como o jornalismo, usa técnicas para realçar atitudes, palavras, nuances, emoções. só que no seu caso, nem ao menos consegue capitanear movimentos, apenas recriá-los, quando muito, ou distorcê-los a reboque.

não seria fariseísmo discutirmos nós, a publicidade e o jornalismo sem cometer haraquiri?

a questão singular é sempre plural. que os plurais não nõs deixem falando sozinhos.

(publicado em o norte, jornal associado da paraíba, no domingo 23 de setembro de 1993, na coluna denominada plurais*, editada por walter galvão). quanto ao rabo e peitos de francinete não sei o que aconteceu posteriormente. mas parece ter doído imenso o rabo do então presidente da associação paraibana de imprensa, walter galvão, que passou a dedicar-me fiel azinhavre).

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