quinta-feira, 15 de setembro de 2016

tropa de ibope



Infeliz do pais que necessita de heróis. Brecht


O capitão Nascimento é o cara. É o herói da vez na terra dos heróis sem caráter. E olhe que já tivemos muitos. Fascista? Caxias, dizem alguns historiadores, mandou espalhar o virus da cólera no rio Paraguai, como se não bastasse o infanticídio dos niños combatientes, pequena quase divisão de crianças de pouco mais de dez anos– que não faziam tráfico - trucidadas como se fossem paraguaios de muamba.

Tropa de elite é um filme para dar Ibope, alguém tem alguma dúvida? produto de circunstâncias, e de um momento histórico, completamente desfavorável à vida mas favorável a nacional “industria” cinematográfica bandida, que sempre viveu de banidos da “luz vermelha”, tipos marginais, bundas femininas idem, mais cuja onisciência nunca foi tão paroxística em sua objetividade na vox tornada populi dos nossos homens de preto, versão gurka tupiniquim, apologizados num estado de Rio de Janeiro de sitio, onde o Bope age como roncinante provedor da ordem desestruturante, a serviço de interesses de um sistema que sempre se alimenta mais do que expele do que daquilo que engole.

A película provocou catarse de um sentimento de prós e contas que alguns dizem não mais que cuspe de um catarro crônico nacional, principalmente em torno de mesas de discussão semi-futebolística - parte de um estado de masturbação coletiva já preconizada por um certo ministro acima do peso. O voyeurismo favélico finalmente deixou de ser o barracão de zinco e as cadeiras da mulata, de um morro idealizado à Herivelto, até mesmo quando Carlos Lacerda mandou? tacar fogo, não de metralha, mas de querosene Jacaré, para livrar-se dos prolegômenos da favelização, onde o grande mal era a lata d´ água no quadril e o pôule do jogo do bicho na cabeça, imagem agora perdida a bala.

É difícil ter consciência social onde não há consciência do que é consciência, quanto mais social, apesar de todo um discurso socializante. O social é parte de há muito já desparafusada de um sociedade onde o estado politico de espírito prenuncia a barbárie como ápice da civilização atingida pela renúncia da alma solidária e conexa a este mesmo corpo social. Estabelece-se a confusão entre princípios de solidariedade e consciência de classe num embate que alimenta de cabo a rabo deste pais ideologias de ação-não-ação-de-ação, nenhuma delas minimamente preocupada com a sorte(ou morte) transformadora dos atores sociais subalternos que inspiram atuação no filme em todos os papéis.

Se, como, disse Nietzsche, quem combate monstros deve tomar cuidado para não se tornar ele próprio um monstro, a imprensa nacional pelo tratamento dado ao filme tornou-se ela própria monstruosa. E nisto somos todos, jornalistas-espectadores, “alemãos”.

(publicado no semanário contraponto, joão pessoa-pb, na ocasião do lançamento do tropa de elite 1)

Nenhum comentário:

Postar um comentário