quinta-feira, 15 de setembro de 2016

loucura & política



              “ todos os homens loucos são dissidentes políticos”

não há porque insistir na reiteração de duvidas: a diagnose quer assassinar a gnose. no brasil, onde pelo menos 10 por cento(aproximadamente 12 milhões de habitantes) é aguilhoada com o estigma de ser desajustado mental, não é só a psiquiatria, mas o confabulário ideológico-político-científico-médico que tem de ser posto em questão. até quando insistiremos na mais insana das políticas, que é ignorar as vozes da loucura ?

história da loucura na idade clássica de foucault, tornou publicamente incontestável que, através do nascimento da clínica, a fabricação do estigma da loucura secularizou de maneira “civilizada” possibilidades concretas de interdição. a produção da loucura e sua antítese, a normalidade burguêsa, passou a ser a verdadeira função política da medicina nesse campo. o indivíduo era(é) interditado, conforme a necessidade de controle social, cada vez mais sacralizado na mão dos açougueiros do comportamento, modalidade sofisticada do exercício hipocrático da máfia de branco. deste modo consumou-se a perpetuação da condição dos passageiros da narrens chif. hoje errantes, em terra, soltos(?) em enganoso espaço bem mais circunscrito que as grades do hospital psiquiátrico, reproduzindo-se na inutilidade social gerada pelo regime político que subvenciona o manuseio combinado do bisturi ao arsenal químico.

os loucos não são simplesmente lunáticos, ou como se os representam estereotipadamente, misto de assassinos visionários com idiotas epiléticos. todos os homens loucos são dissidentes políticos. a afirmação cooperiana foi desde cedo apreendida, infelizmente, pelos governantes. toda loucura é delusão política, adverte cooper nos escritos de linguagem da loucura. não são poucos os autores que tornaram esta verdade óbvia, evidentemente em círculos restritos. o surgimento da idéia da antipsiquiatria como entendimento político-socializante da linguagem da loucura, é o comportamento “insano “ à “lucidez” da descoberta do fascista português, egas moniz, que recebeu o prêmio nobel pela invenção da lobotomia, em 1931, e que foi assassinado por uma de suas vítimas – única lobotomia bem feita segundo cooper.

a profissão de relojoeiro de ideologias não é fácil. cooper, laing, castel, basaglia, são execrados a toda hora pelos adeptos do value free, a mitificação da ciência como inocente cordão panacéico. para quem é leitor de, e não about, são bastantes significativas as palavras de lênin, em as três partes constitutivas do marxismo, de 1913: “ a doutrina de marx suscita no mundo civilizado a maior hostilidade e ódio de toda ciência burguêsa(tanto oficial, quanto liberal) que vê no marxismo qualquer coisa como “ uma seita de malfeitores”. não se podia esperar outra atitude , pois numa sociedade fundada na lua de classes, não será possível haver ciência social “imparcial”. toda ciência oficial e liberal defende a escravatura de um modo ou de outro, enquanto que o marxismo declarou guerra implacável a esta escravatura. pedir uma ciência imparcial numa sociedade fundada sobre a escravatura assalariada é uma imagem tão pueril como pedir aos fabricantes para serem imparciais na questão de saber se convém ou diminuir os lucros do capital para aumentar o salário dos “operários”. para que estas questões” teóricas” não fiquem no vácuo que suscita a vermelhidão espumante, apliquê-mo-la de imediato ao quadro da indústria automobilística; à confirmação da preocupações, que também não são à toa, acerca das possibilidades do columbia(ônibus espacial)seja um protótipo de lança mísseis de alcançe total. em se tratando das psicociências, sabemos que a maioria dos teses são classistas,sexistas,etc., para não se falar do significado real dos neurolépticos.

antes que vozes demagogo-democráticas urrem, proclamando nossa parcialidade pró-moscou(como se tudo que é “do contra” viesse de lá), acrescentariamos que, em matéria de técnicas de lavagem cerebral, EUA &URSS, abusaram e abusaram-nos no curso da história, cabendo contudo aos países capitalistas a dose maior de hipocrisia, negaceando a questão de sua aplicação, atribuindo a seus inimigos seu uso constante. seria oportuno relembrar que só recentemente o governo inglês eliminou as técnicas de privação sensorial, conservando-as, entretanto, para auto-aplicação em seus agentes. e nada melhor para encerrar o parágrafo do que reticências meditativas sobre como o cone sul, onde os governos de uruguai,chile,argentina, etc,absorveram radicalmente tais técnicas. vem a calhar esta semana(15/06/81) a estréia(sete anos após, “ a conta de mentiroso”)de estado de sítio, de costas gravas(diretor de Z), película com referências explícitas, por isso mesmo amputada em uma metro e meio(algumas legendas, e a cena de tortura sob os pés do auriverde pendão, além da mala com a inscrição made in brazil).

voltando a loucura, o conceito de normalidade impõe necessidades em vez de as reconhecer. a loucura é uma propriedade social que nos foi roubada, tal como a realidade de nossos sonhos e de nossas mortes(alguém se lembra da história da morte no ocidente, de philippe ariês?). temos de as recuperar, de modo que se tornem criatividade e espontaneidade numa sociedade transformada. para o louco não interessa que o inconsciente seja estruturado como linguagem. é a linguagem que deve ser estruturada com o inconsciente. a loucura é a desestruturação das estruturas alienadoras das existência e o “ sintoma esquisofrênico” de idéias semeadas em nossa mente consitui uma autêntica compreensão desta alienação. “ a loucura existe como uma delusão que consiste em realmente enunciar uma verdade indizível numa situação infalável(cooper)”. a luta da antipsiquiatria é a defesa para que o comportamento profundamente pertubador, incompreensível “ e louco” seja incorporado na sociedade global e nela disseminado como uma fonte subversiva de criatividade, de espontaneidade, de não doença. a não existência da esquizofrenia refere-se simplesmente ao não estabelecimento concreto de uma entidade nosológica no sentido comum: coleção mais ou menos classificada de signos, objetivos e sintomas. decerto, isso não significa uma argumentação a favor de uma etiologia social ou socio-psicológica de esquizofrenia enquanto oposta a uma orgânica ou como parte de uma complexa etiologia envolvendo todos os fatores em grau variável. o que é preciso, é respeitar a loucura como um modo diferente de ser e conhecer, sem hipostasiála, o que é verificável quando da abordagem da idéia que se tem sobre o processo criativo dos artistas, que da loucura necessitam para a sua poiésis, se a assim a querem lívre e contínua.

não queremos ser como nietzsche, que enlouqueceu em busca de um punhado de pessoas a quem pudesse falar e que assumissem pensar um pouco como ele. o elogio da loucura é a antítese às “ operações limpas “ que nos transformam em anômalos, cyborgs, o que de certo não agrada aos defensores do sistema produtivo que só nos defende enquanto correias de transmissão “ não esgarçadas “.

o problema da humanidade, é que ela é humana demais. pessoalmente, sinto-me como o “ esquizofrênico” de price, que declarou: ouvi vozes dizerem: ele está consciente da sua vida”.

sem transformação dos parâmetros que conduzem esta sociedade, nunca haverá uma psiquiatria nova, mas sempre opressiva. o único abuso da psiquiatria a ser abolido, é realmente seu proprio uso.

resta-nos pois, a “loucura” de nós todos para impedir a morte do revolucionário que existe em cada um de nós.

texto integralmente publicado no panorama literário do diário de pernambuco, em 10 de julho de 1981, e no suplemente correio das artes, de a união, em 16 de agôsto do mesmo ano.

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